ALIMENTAÇÃO
E CUIDADOS COM FILHOTES DE PSITTACINE
Luiz
Roberto Francisco - Biólogo
Introdução
A
criação de filhotes de psittacine à mão,
representa um dos pontos mais importantes no sucesso de trabalhos
cujos resultados dependem da reprodução e manutenção
dos filhotes, sejam estes trabalhos voltados à conservação
ou à produção comercial. Os filhotes
de uma criação representam o objetivo maior
a ser alcançado, a razão para a qual todos
os esforços são despendidos. Por isso mesmo,
diversos são os cuidados a se tomar para que os resultados
sejam os melhores possíveis.
Berçário
Inicialmente, é importante
ressaltar que os psittacine são altriciais, ou seja:
os filhotes nascem incompletos, desprovidos de penas, com
os olhos fechados e sem tônus muscular que os permita
movimentar-se livremente. Por estes motivos, são totalmente
dependentes dos pais quando no ninho e, em contrapartida,
totalmente dependentes de quem os alimenta quando criados
longe dos pais. Por serem desprovidos de penas, os filhotes
são incapazes de controlar e manter a temperatura
corpórea. No ninho, o contato com os pais os mantêm
aquecidos. Em condições artificiais, porém,
não podem ser mantidos adequadamente senão
em estufas que denominamos Unidades de Tratamento Animal,
que podem ter suas temperaturas e umidades controladas.
Estas
estufas devem estar em uma sala destinada especificamente
ao cuidado de filhotes - berçário - onde igualmente
todas as instalações e instrumentos são
para tal fim. O primeiro passo implica em regular adequadamente
a UTA, de acordo com a idade dos animais que ali serão
mantidos. Filhotes de até 2 semanas aproximadamente,
devem ser mantidos sob temperatura de 36°C. A partir
de 2 semanas, alguma espécies já podem ter
a temperatura da UTA reduzida para 33°C, que pode ser
mantida até o final da 4ª semana, quando então
pode-se experimentar a redução para 30°C
e assim por diante, de acordo com o desenvolvimento do filhote
e das penas que revestem seu corpo. Obviamente esse processo
não é matemática pura e simples. O responsável
pelos filhotes deve avaliar o desenvolvimento de cada indivíduo
para definir quais as melhores condições de
temperatura de manutenção.
Alguns
indivíduos desenvolvem-se mais rápido que outros,
e vice-versa. Filhotes ofegantes podem indicar que a temperatura
está muito elevada, enquanto que filhotes que estejam
tremendo, obviamente indicam que a temperatura da UTA está abaixo
do ideal. Primariamente, portanto, antes de abordarmos o
item alimentação, é fundamental compreender
que os filhotes devem ser mantidos sob temperatura ideal,
o que será fundamental no processo de manutenção
de suas funções fisiológicas. Ainda,
preferencialmente cada filhote deve ficar alojado em um potinho
compatível com suas dimensões, não sendo
muito largo de maneira que ele possa ficar mais aquecido
em um ambiente um pouco mais restrito. Cada potinho deve
ser forrado com lenços de papel extremamente suaves,
para evitar abrasões de pele. Papéis ásperos,
o mínimo que sejam, agridem a pele dos filhotes e
podem causar lesões cutâneas.
Higiene
Certamente
os cuidados envolvendo a higiene dos filhotes e tudo que
concerne aos mesmos estão entre os mais importantes
para o sucesso na criação de psittacine. Para
começar, é fundamental trabalhar com os filhotes
considerando que são indivíduos cujo sistema
imunológico ainda não está devidamente
desenvolvido, que apresentam uma flora intestinal ainda bastante
recente e delicada. A compreensão destes fatores básicos é pré-requisito
para um apropriado manejo. Uma criação normalmente
conta com filhotes resultantes de duas origens: incubação
artificial e incubação natural. A origem dos
filhotes influencia diretamente no alojamento e manejo dos
mesmos. Consideradas condições de incubação
e nascimento adequadas, com os devidos cuidados de higiene,
estes filhotes não devem ser mantidos num mesmo ambiente
em que existam filhotes que tenham sido retirados dos pais.
Isto porquê filhotes que estiveram com os pais, tiveram
contato com microorganismos aos quais os filhotes criados
artificialmente provavelmente ainda não foram expostos.
Nestas condições, os filhotes oriundos de incubação
artificial podem ainda não ter condições imunológicas
de fazer frente a determinados microorganismos, podendo então ser vítimas
de contaminações. Ainda, muitos pais podem ser portadores de
doenças cujos sintomas não sejam visíveis e podem transmiti-las
diretamente para seus filhotes. Ao se retirar estes filhotes e colocá-los
no mesmo ambiente com filhotes criados artificialmente, os resultados podem
ser nefastos.
Ao
ingressar num berçário, o responsável
pelos filhotes deve preferencialmente calçar uma sapatilha
ou similar, bem como guarda-pó e demais componentes
de indumentária utilizados apenas naquele ambiente.
Especial cuidado deve ser dispensado às mãos,
que devem ser devidamente lavadas e desinfetadas antes de
quaisquer procedimentos. Todos os instrumentos utilizados
no manejo também devem ser alvo de um protocolo de
higiene e desinfecção. Obviamente, em instalações
que mantenham dezenas, centenas de filhotes, isso pode ser
uma tarefa absurdamente complexa e, muitas vezes, beirando
o inviável. Contudo, de uma maneira ou de outra, é fundamental
estabelecer um padrão de higiene para as instalações
e manejo.
Alimentação
Os
filhotes devem ser alimentados com rações específicas
para tais fins. Existem diversas marcas nacionais e importadas
no mercado. Deve-se escolher um produto confiável,
de uma empresa idônea e que seja indicado para as espécies
as quais se está mantendo.
O
preparo da ração deve levar em conta a idade
dos filhotes que serão alimentados, pois aqueles mais
novinhos receberão uma fórmula mais diluída,
enquanto que aqueles mais desenvolvidos receberão
uma fórmula mais concentrada. A correta diluição
da ração é parte importante do manejo,
pois caso os filhotes recebam uma fórmula espessa
demais em relação ao seu estágio de
desenvolvimento, podem facilmente desidratar e vir a óbito.
Por outro lado, se a fórmula for muito diluída
o animal ficará subnutrido e poderá vir a óbito
também. Assim, para os diferentes estágios
de desenvolvimento, existem diferentes relações
entre a quantidade de água e de ração
envolvidas no preparo da fórmula. As diversas fábricas
de rações propõem para seus produtos,
diluições específicas. O responsável
pelos filhotes deve estar atento às recomendações
de diluição propostas, mas deve principalmente
avaliar seus filhotes. Como sugestão de manejo inicial,
pode-se ter como base a seguinte tabela:

Evidentemente,
as diferentes espécies podem responder de maneira
distinta às soluções propostas e cabe
ao responsável pela alimentação estar
atento ao desenvolvimento dos filhotes aos seus cuidados.
Além de se oferecer a fórmula numa concentração
apropriada ao estágio de desenvolvimento dos filhotes, é igualmente
importante que a água utilizada na diluição
seja límpida, de fonte confiável e, sobretudo,
esteja em uma temperatura adequada. Preferencialmente, não
deve estar a mais do que 42°C, pois acima desta temperatura,
podem ocorrer queimaduras internas no inglúvio (papo),
que freqüentemente evoluem para quadros mais complicados,
como infecções e a conseqüente morte do
animal. Ainda, temperaturas muito elevadas no preparo da
fórmula podem desnaturar/destruir algumas enzimas
e microorganismos (ex:Lactobacillus acidophillus, Streptococcus
faeceum) existentes nas mesmas, que têm o objetivo
de aumentar a digestibilidade do produto.
Em
contrapartida, temperaturas muito baixas podem induzir à stase
(interrupção do funcionamento) do papo, fazendo
com que o alimento fermente e sirva de caldo de cultura para
bactérias e fungos. Baixas temperaturas às
vezes não chegam a causar a stase do papo, mas podem
aumentar o período de trânsito dos alimentos,
fazendo com que permaneçam portanto por mais tempo
no trato digestivo, o que quase que invariavelmente culmina
com a proliferação de Cândida, causando
assim a candidíase, um dos primeiros problemas que
pode acometer um plantel de filhotes.
O
desenvolvimento de uma candidíase é sempre
secundário a um problema anterior, que pode residir
nas condições de manejo. Existem ainda uma
série de doenças que podem acometer os filhotes
e que estão devidamente descritas na literatura especializada.
Tomados
os devidos cuidados no preparo da ração para
os filhotes, o ideal é que sejam utilizados diversos
jogos de seringas, bisnagas, sondas, etc, para evitar que
um mesmo utensílio fique passando por diversas aves.
Esse é um conceito que funciona bem na teoria, mas
que na prática pode mostrar-se um objetivo difícil
de se atingir. Um plantel com 50 filhotes já complicaria
bastante o manejo. Assim, cabe a cada criador implantar a
melhor logística possível para este manejo.
Um outro ponto importantíssimo ao se alimentar os
filhotes, é proceder à pesagem de cada um deles
antes de cada alimentação, pois é só através
do controle do peso e a anotação em fichas
individuais que se pode ter uma idéia da evolução
ou não das aves.
O
ganho de peso é normalmente uma curva ascendente,
com uma ligeira queda quando os filhotes estão com
aproximadamente 30 dias - dependendo da espécie -
e então estabilizando. Essa queda no peso deve-se
ao fato de que o filhote, que está assumindo as proporções
do adulto já não conserva tanto líquido
quanto nas fases iniciais, bem como já conta com uma
quantidade considerável de penas. É um equívoco
grave considerar que apenas visualmente pode-se ter noção
das condições dos filhotes. O controle de peso,
realizado sistematicamente permite visualizar o padrão
de ganho-perda de peso de cada indivíduo, fornecendo
subsídios para o seu manejo. Para que tudo isso possa
ser realizado adequadamente, é fundamental que os
filhotes estejam devidamente identificados por anilhas. Ainda,
os potes onde estejam alojados individualmente devem ter
anotadas as inscrições da anilha, para facilitar
o controle.
O
período de alimentação para filhotes
criados à mão é relativamente variável,
dependendo dos objetivos do manejo. Um criador comercial
poderá manter seus filhotes criados à mão
para entregar aves mais mansas para seus potenciais compradores.
Quando não é o caso, obviamente as aves podem
ter esse processo interrompido mais cedo. Em geral, os filhotes
são alimentados à mão por um período
que pode estar compreendido entre 3 e 5 meses. Na fase final,
começa-se a oferecer aos filhotes a alimentação
que deverão estar recebendo quando estiverem sozinhos,
de maneira que comecem a se acostumar. Normalmente essa transição é demorada
e muitas vezes aborrecida, com alguns filhotes demonstrando
forte dependência e/ou preferência por receber
o alimento no bico, como estão acostumados. Esta fase,
denominada de "desmame" pela falta de uma palavra
mais apropriada, pode envolver ainda alguns riscos importantes
para a saúde dos filhotes. Com as asas contando com
um significativo número de penas, começam a
tentar a voar e podem se machucar, caindo golpeando o peito
contra o chão ou cantos vivos ou, ainda, chocando-se
contra vidros. Também pode acontecer de ficarem presos
por anilhas, patas, etc e se lesionarem gravemente, podendo
até morrer. Há que se lidar com essa fase com
paciência e entender os tempos de cada filhote.
Passada
esta fase, o filhote estará pronto, devidamente formado
e poderá já ser instalado em ambiente externo,
protegido do vento e das intempéries. Igualmente, é fundamental
seguir com o fornecimento de uma dieta de qualidade. Um erro
muito comum que observamos é o fornecimento de misturas
de sementes. Sabidamente, os psittacine são aves extremamente
inteligentes e seletivos. Ao receberem um pote de comida
com mistura de sementes, eles escolhem aquelas que são
mais palatáveis e, muitas vezes, para chegar a elas,
jogam as outras fora, gerando um alto desperdício.
Além disso, obviamente as aves passam a comer uma
alimentação desbalanceada, o que é prejudicial à sua
saúde. Portanto, a manutenção dos psittacine
deve ser feita oferecendo-se uma ração de excelente
qualidade, suplementada com frutas em um determinado período
e, eventualmente por sementes. Prioriza-se o fornecimento
da ração como a base da alimentação.
Os demais itens, sugeridos acima, devem ser fornecidos em
outro horário, separados da ração. Dessa
forma, assegura-se que as aves sejam adequadamente nutridas.
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